­

O DILEMA MENGO E FORTES

1/10/2013




















Estávamos no início de uma relação de projecto com a Mengo para realizar um conjunto de habitações perto da foz do Rio Minho e sentíamos da parte dela alguma pressão para abordarmos novas concepções espaciais / formais.

Neste projecto o cliente alvo era diferente do que estávamos habituados, por outro lado a ideia da arquitectura "espectáculo" estava, filosoficamente, nos antípodas da nossa prática de projecto. Colocava-se de facto a possibilidade de concretização dessas novas experiências, que normalmente ficariam apenas por projecto. Até esta altura havia sempre alguma contenção formal justificada por inúmeras razões; contexto, orçamento, cliente e o desenho viciado, esse calcanhar de Aquiles de todos.

Nesse período estava a ler alguns textos sobre Alvar Aalto que exprimiam algumas das dúvidas que sentia : " não faz sentido criar novas formas se estiverem desprovidas de novos conteúdos", " não só a Arquitectura cobre todas as áreas da vida humana, como deve também continuar a ser desenvolvida em todas as áreas em simultâneo. Se isso não acontecer, obtemos resultados meramente parciais e superficiais.", "Tenho a sensação de que na vida há muitas situações nas quais a organização é demasiado brutal; é tarefa do arquitecto conferir à vida uma estrutura mais sensível.".

Estes três pontos evidenciados por Aalto sobre conteúdo, a transversalidade do processo criativo e a relação Arquitectura/ Homem e Natureza passaram a ser tópicos de reflexão nesse "novo caminho", quase como carris para manter o rumo. Como ele próprio referia a forma é um mistério que não se presta a definições.

A partir desse momento senti que importava a resposta ao objectivo proposto, independentemente se a forma é mais orgânica ou não. De certa forma já realizávamos esse processo nos projectos de design, onde atingíamos outros níveis de resposta e de liberdade. As primeiras experiências para o projecto De Lemos também já abordavam um relacionamento mais dinâmico com a topografia, explorando os conceitos de plataforma, movimentos tectónicos e percurso, só que de uma forma ainda tímida, muito suportada na própria orografia do terreno.

Os nossos projectos são ou deverão ser sensíveis na relação com a paisagem. Para mim essa delicadeza assumia quase o carácter de um material mais têxtil. Lembrei-me dos trabalhos de Leanne Marshall e de como pareciam um projecto de arquitectura em forma de roupa. Têm um equilíbrio entre uma fluidez quase biológica / natural e o gesto marcado da acção humana, da intervenção. É isso que procuramos e não uma espécie de camuflagem ou mimetismo.

O projecto para Marinhas parte de uma fita que serpenteia todo o terreno, parte enterrada, parte visível, simulando um percurso. Possui momentos de maior intensidade onde se resolvem os edifícios fluídos e dinâmicos, provocam uma infinidade de leituras sobre o objecto e a paisagem. Simultaneamente a resolução da casa principal é muito simples. Duas fitas sobrepostas e interlaçadas emergem do terreno, criam o piso o e a cobertura. A casa desenvolve-se em duas entradas nos extremos, que confluem numa casa / miradouro no centro. A casa funciona em rampa na totalidade das circulações e são criadas plataformas para suportar as diferentes áreas funcionais.

Quero pensar que nunca saímos do mesmo modo de ver a Arquitectura, essa contradição assusta-me, não por pensar que mudei, mas por pensar que possa ter regredido. Na altura sobre o primeiro estudo para Marinhas o Rui disse-me: " estamos a começar a fazer boa arquitectura neste atelier…" , respondi sisudo: não é boa arquitectura, é uma boa imagem e duas lâminas sobrepostas… a resposta não era direccionada para esse projecto especificamente, mas para a possibilidade de algo que ainda não tinha acontecido mas que eu receava.

Por essa razão fugi sempre um pouco às obras e revistas do momento … com medo da sedução fácil talvez . Usava sempre referências um pouco mais antigas, ligeiramente anacrónicas. Francisco Mateus justificava as suas obras com referências à arquitectura egípcia, grega ou outras onde a acção do tempo fosse perceptível, libertando-a dos elementos acessórios. Porém quando Gehry começou a certa altura a desenhar e a desenvolver modelos de peixes dizia que se temos que recuar no tempo à procura de referências, porque é que paramos na Grécia antiga, porque é não vamos mais longe até ao princípio.

Neste momento tendo a concordar com o Herzog, o mundo tem tudo para oferecer e nós temos a sorte de poder utilizar tudo como inspiração, é o que ele chama de apropriação.

Imagens de cabeçalho
Conjunto habitacional Marinhas, casa Mengo & Fortes,
estudo de galheteiro, de Lemos guest house.
© arquivo Atelier Carvalho Araújo


© joel moniz











You Might Also Like

0 comentários

Popular Posts

Like us on Facebook

Flickr Images